Antônio Honorato Silva Limoeiro
Antônio Honorato Silva Limoeiro
Meu Penta Avô
Bisneto de Pedro Barbalho é Capitão Honorato
Silva Limoeiro que celebrizou-se prendendo sozinho,
quando Juiz de Paz, três perigosos assassinos. O
fato é narrado por Gustavo Barroso em "Heróis e Bandidos"
e por Esperidião de Queiroz Lima, em "Antiga
Família do sertão"
Mombaça-Biografia de Um Sertão
Augusto Tavares
Um bisneto de Pedro Barbalho e Teresa de Sousa, Capitão Antônio Honorato Silva Limoeiro, filho de Manuel Pereira da Silva, teve larga atuação na vida política de Mombaça. Quando, em 1834, o Capitão Honorato exercia o cargo de Juiz de Paz, tornou-se célebre pela prisão que efetuou dos criminosos Estácio José da Gama e João Cariri, em circunstância verdadeiramente dramática, revelando bravura e astúcia.
Meu Penta Avô
Aos seis de janeiro de 1830 na Capella de Maria Pereira feitas as denunciações como manda o Concº Trindentino sendo primeiramente dispensados e depois confessados de licença minha o Padre João Francisco Ferreira Barros casou solenemente em face da Igreja Antônio Honorato da Silva filho legitimo de Manoel Pereira da Silva e Joaquina Maria de Santa Anna com Francisca Gertrudes da Conceição filha legítima de Antônio Gonçalves Carvalho e Francisca Gertrudes da Conceição ambos os nubentes naturaes e moradores nesta freguesia, sendo presentes partes testemunhas Antônio Roiz da Silva e Pedro Pereira Marques, casados, logo lhes deu as bênçãos nupciais conforme os ritos serimoniais da Santa Madre Igreja do que para constar mandei fazer este termo que assigno. O Vigº Bento Antº Fernandes
![]() |
| Registro do matrimônio de Antônio Honorato da Silva e Francisca Gertrudes da Conceição 02.01.1830 |
Registro do matrimônio de Antônio Honorato Silva Limoeiro e Maria do Espírito Santo Marques 04.06.1872
Antônio Honorato da Silva Limºr e Maria do Espírito Santo aos quatro dias do mês de junho de mil oitocentos e setenta e dois em desobriga na fazenda Flores assiti juiyta Tridentinus dando logo as bênçãos nupciais os sacramentos do matrimônio si contrairam os meus parochianos Antônio Honorato Silva Limoeiro, viúvo de Francisca Gertrudes da Conceição, e Maria do Espírito Santo perante as testemunhas Theotônio Ferreira Marques e Serafim Gonçalves Torres do que para constar fiz este assento que assino O Vigrº João Antº do Nascimento e Sá
Registro de Óbito de Antônio Honorato Silva Limoeiro
Antônio Honorato Silva Limoeiro, Aos vinte e quatro dias do mês de Abril do ano de mil e novecentos, as duas horas da madrugada, no lugar Barra Nova desta freguesia de Nossa Senhora da Glória de Maria Pereira, do Bispado do Ceará, faleceu de inflamação Antônio Honorato da Silva Limoeiro, de noventa e cinco anos de idade, casado que era com .... natural desta freguesia e nela morador tendo recebido os sacramentos da Igreja. Seu cadáver amortalhado com hábito preto, no mesmo dia foi sepultado no cemitério público da Capela, digo desta vila. E para constar lavrei este termo que assino.
O Vigário Pedro Leão Paz de Andrade.
Estácio José da Gama, foi o perverso matador de Luciano Domingues de Araújo, moço rico, pertencente a importante família ramificada em Quixeramobim e Boa Viagem, no dia em que ia casar-se com Joana Baptista Barreira, filha dos ricos fazendeiros Inácio Lopes da Silva Barreira e Joana Baptista de Queirós, proprietários da antiga fazenda Tapuiará, no Município de Quixadá, crime conhecido pela denominação Noivado de Sangue, do qual faz João Brígido interessante relato ás fls. 275 e 276, de seu precioso livro Ceará - Homens e Factos, apenas laborando em ligeiro engano, pois afirma que a noiva de Luciano se chamava Maria, quando, na realidade, o seu nome era Joana, como se vê no notável livro de Esperidião de Queirós Lima, Antiga Família do Sertão, publicado recentemente. A prisão de Estácio José da Gama, pelo Capitão Antônio Honorato, demonstrou a valentia do Juiz de Paz de Mombaça. Gustavo Barroso descreve-a no seu livro Heróis e Bandidos e Esperidião Queirós Lima, no seu citado livro, dela também se ocupa, de acordo, aliás, com tradição guardada em Mombaça. Apenas estes ilustres escritores trocaram o nome do Capitão Honorato, chamando-o Manoel, quando, na realidade, era Antônio. Recebendo ordens das autoridades de Quixeramobim para efetuá-la, o Juiz de Paz Antônio Honorato diligenciou cumpri-la logo, organizando uma escolta. Um dia perto da fazenda Campos, encontrou-se com os dois criminosos, que conseguiu escapar, deixando, porém, no local as suas armas: - um bacamarte e uma granadeira. Dias depois, estava o Capitão Antônio Honorato, pela manhã, no curral de sua fazenda Barra Nova, a duas léguas de Mombaça, tirando leite das vacas, auxiliado por um moleque, seu escravo, quando ouviu alguém dizer: - Bom dia, Capitão. Voltando a cabeça, viu Estácio José da Gama e seu companheiro João Cariri. Indagou-lhes, então, o que desejavam; os criminosos responderam que queriam as armas que, dias antes, lhes haviam sido tomadas. O Capitão Honorato mandou que esperassem um momento enquanto acabava de deleitar a última vaca. Terminando o serviço, pediu que os facínoras fossem para a frente da casa, que os atenderia logo. No caminho para casa, ouviu: - Não atire no homem". Percebeu Honorato que uma arma fora apontada, mas prosseguiu, sereno, seu caminho até penetrar a porta da cozinha.
![]() |
| Óbito de Luciano Domingues Araújo |
Luciano Domingues de Araújo, br.
Aos doze de fevereiro de mil oitocentos e trinta e quatro, faleceu da vida presente de hum tiro de bacamarte com o sacramento da confissão Luciano Domingues de Araújo com idade de vinte e nove anos, casado que foi com Joanna Baptista de Queiróz, envolto em hábito branco, sepultado nesta Matriz de grades acima e por mim encomendado, com encomendação solene do que para constar fiz este termo que assinei.
Vigário Bento Antônio Fernandes.
Fazenda Barra Nova, teus caminhos, campos e alpendres nos contam a bravura e astúcia do Capitão Antonio Honorato Silva Limoeiro, prendendo, sozinho, temerosos assassinos.
Ele sozinho alia um batalhão.
Biografia de um Sertão
Deu, ali, umas cordas ao escravo, ordenando-lhe que se conservasse calado, até que fosse chamado para amarrar os cabras. Dirigiu-se à sala da frente, onde já se encontravam os criminosos, e perguntando-lhes, novamente, o que desejavam, obteve esta resposta: - "queremos as armas". O Capitão Honorato oferece-lhes ouro e dois bons cavalos para que se retirassem, dizendo que não entregaria as armas porque se o fizesse ficaria desmoralizado. Os dois criminosos não aceitaram a oferta e insistiram no pedido. Nesta altura, convêm ceder a palavra ao brilhante escritor de Antiga Família do Sertão: - "Honorato chamou o moleque e pediu água para lavar as mãos e continuou querendo demonstrar as vantagens de suas propostas aos obstinados antagonistas. Volta à sala o negrinho com a bacia d'água e, vendo que o seu senhor esticava os braços para adiante sungando as mangas, pôs-lhe na frente, apresentando-lhe a bacia, voltando as costas para os facínoras. Ó atrevido! - gritou-lhe Honorato. - Dás as costas a estes senhores? E, ao mesmo tempo, com as costas das mãos, deu-lhe violenta bofetada, que o fez rodar com a bacia para um canto da sala. Os dois cabras, como era natural, acompanharam com a vista o espetacular trambolhão do moleque. Outra cousa não queria Honorato, que pulou como tigre sobre eles atingindo violentamente com os pés no estômago de Estácio, que caiu desacordado, e arrancando com as mão possantes e destras as armas de Cariri, que esmoreceu e ficou sem ação, sob a mira do seu próprio clavinote, manejado pelo agilíssimo Capitão. Honorato chamou então o escravo que, seguindo suas ordens, atou com arrochados "nós de porco" os braços de Cariri, que foi amarrado ao esteio. Só então é que Estácio foi recobrando os sentidos, e vendo a própria situação em que se achava, suplicou: - Não me faça mal, que eu não deixei que Cariri lhe atirasse pelas costas! Eu ouvi a sua intervenção, fico-lhe muito agradecido; mas agora nada posso fazer, tenho que cumprir as ordens que recebi; é o meu dever. Os dois criminosos foram enviados para Quixeramobim, onde entraram em meio de grande regozijo popular, sendo entregue à justiça. O extraordinário deste caso é que o bravo sertanejo nunca pensou em negociar com os cabras; puxou conversas tão somente para distraí-los, seu único propósito era amarra-los e tinha plena confiança de o conseguir."
O subdelegado Antônio Honorato mereceu, pelo valente feito, do Governo da Regência, mediante indicação do Presidente da Província, a comenda da Ordem de Cristo, comenda que jamais quis receber, dela desistindo ao saber que tinha de pagar emolumentos na Alfândega.
Perdura em Mombaça a lenda de que, certa ocasião, o Capitão Honorato proibira uma pescaria em seu açude Barra Nova. Insistindo seus filhos em fazê-la, ele sentenciara: - Não pegarão nem um peixe. As tarrafas só apanharão sapos". e assim aconteceu ...
Na fazenda Barra Nova ainda se encontra, em bom estado de conservação, a casa em que residiu o Capitão Honorato. Seus descendentes, no Município, são numerosíssimos. O Cel. José Aderaldo de Aquino, antigo Tabelião e político influente em Mombaça, e Ernesto Honório Aderaldo de Aquino dele descendiam. O primeiro era pai do Padre Francisco Lino Aderaldo e avô materno dos Drs. Plácido, Newton e José Aderaldo Castelo, e o segundo, avô paterno dos Drs. Tarcisio, Aluísio e Mozar Soriano Aderaldo.
Crimes Célebres do Ceará
José Jucá - Instituto do Ceará - 1914
... Tratemos agora da prisão, efetuada em Maria Pereira, hoje Benjamin Constant, onde foi ele refugiar-se, pelo então Subdelegado de Polícia capitão "Manuel" Honorato, que por essa ocasião mostrou rara bravura, com vai ver o leitor.
Naquela mesma época, o referido soldado João Cacundo, destacado em Quixeramobim, como dissemos, indo ali, alta noite, roubar o armazém de mercadorias de um comerciante, cujo nome não podemos colher, este, pressentido o ladrão, torna-lhe a porta e dá-lhe voz de prisão.
Fugindo ao cerco, J. Cacundo deixa morto, traspassado de baioneta, o infeliz negociante, desertando em seguida com a granadeira, que lhe fora fornecida pelo governo da antiga Província, indo depois homiziar-se junto a Estácio, em Maria Pereira, tornando-se os dois dignos um do outro pela ferocidade de seus crimes.
No regime decaído, delitos de tal natureza eram severamente punidos pelo poder público. daí o Chefe de Polícia oficiar aquela autoridade recomendando-lhe o maior empenho na captura desses criminosos.
Homem destemido e poderoso proprietário, cercado de filhos, genros, agregados e escravatura, Honorato cuidou desde logo em dar cumprimento às ordens recebidas.
Assim, feitas as devidas indagações, descobriu-se o valhacouto dos bandidos; e, em dada ocasião, acompanhado de sua gente, pôs-lhes malogro cerco, pois que os acelerados, divulgando que se aproximava a escolta, evadiram-se precipitadamente, deixando ali aquela granadeira levada de Quixeramobim, e que foi apanhada.
Voltado à sua fazenda denominada Barra Nova, o valente sertanejo dispersou todo o pessoal, mandando-o para seu sítio Flores, a uma légua distante, onde tinha abundante lavoura com engenho de moer cana e donde seus filhos e escravos iam nos dias santificados cumprimenta-lo e receber ordens para novos trabalhos.
Os audaciosos malfeitores mandaram recados a Honorato, avisando-o de que brevemente iriam fazer-lhe uma visita, ameaça que aliás não foi tomada ao sério.
Uma bela manhã, porém, quando o ameaçado achava-se em sua referida fazenda na companhia somente de sua mulher, uma escrava, um escravinho e o respectivo vaqueiro, desleitando com este as vacas (era no inverno), ouviu que, pelas costas, lhe diziam da porteira do curral: bom dia, capitão Honorato.
Eram os dois facínoras, que, enfeitados de clavinotes, cartucheiras, espadim e faca pequena, vinham fazer a visita prometida.
Com rapidez do inesperado momento, vira-se Honorato, e, simulando a calma dos heróis, respondeu-lhes: bom dia, meus senhores; deixem que acabe de tirar leite desta vaca, que lhes falarei.
O covarde do vaqueiro, diante dos sicários, armados até os dentes, como se costuma dizer, pula a cerca e dispara em busca da mata vizinha, onde se embrenhou apavorado.
Desleita a vaca, dirige-se Honorato ao girau dos potes a deitar ali o leite colhido e diz para os seus visitantes: vão para a casa aí pela frente.
Note-se, que no trajeto dos pés da vaca ao dito girau dos potes, ouvira ele esta voz partida dos cangaceiros - não atire no homem.
Não se voltou, entretanto, o indômito valente, não; mas esgueirando-se, ficou fino como um dedo, conforme me contava ele depois, relatando essa grave ocorrência de sua mocidade.
Tornemos agora a sua entrada pela parte da cozinha da casa, enquanto os malfeitores esperavam na frente.
ali chegado, encontrou a esposa em desmaios, e reanimando-a, verbera: mulher, por Deus, não dê sinal de fraqueza.
E atravessando bem a porta, ordenou à escrava que se sentasse ali na sala interior, e que, ao primeiro chamado, corresse à sua presença.
Calmo e prazenteiro, vem à sala da frente, faz ao recém-chegados ligeiro cumprimento de cabeça e os manda entrar, o que só conseguiu depois de forte e calculada insistência.
Sentados em um banco, Honorato fecha a port de baixo, de arrochada tramela, e pergunta-lhes o que pretendem, ao que responderam que iam buscar a granadeira tomada.
Ainda com aquela calma que lhe era peculiar, diz Honorato que não podia entregar por pertencer ela ao governo; mas que lhes fornecia dois quartos prontos e arreados para fugirem, bem como o dinheiro de que dispunha na ocasião, mostrando-lhes ouro, prata e papel, que sacou de uma gaveta.
"E a nada o brutos se moviam"
Nesse comenos, chama aquele escravinho, já voltado do curral, onde soltava os bezerros à proporção que lhe eram pedidos pelo tirador do leite, conforme o uso do sertão e o põe a botar-lhe água nas mãos, colocando-se, porém, de modo que o pequeno, inconsciente instrumento de seu plano mavórcio, desse às costas aos visitantes.
Isto feito, fingiu-se irritado com o pobrezinho do preto pela falta de atenção, tomando aquela posição desrespeitosa, e, em castigo, deu-lhe grande bofetada, arremessando-o longe, tal a sua proverbial força hercúlea.
Surpresos os criminosos e desviados seus olhares para o escravinho que caíra, como era natural, avança Honorato com a velocidade do raio e destreza do leão das selvas, e, jogando o pé no estômago de um deles, prostra-o por terra, arrebata-lhe o clavinote, e, apontando-o contra o seu companheiro, grita-lhe: rende-te cabra, ordenando-lhe que se despojasse de suas armas, no que, é escusado dizer, foi prontamente obedecido.
Ato contínuo, fê-l cruzar as mãos sobre as do seu companheiro desfalecido, chama a escrava que pata tanto deixara na sala interior, como ficou dito, e lhe ordena que os atasse conjuntamente, colocando ambos, assim presos e ajoujados, em seguro armador da casa.
Em seguida, toma do seu comprido cachimbo, acende-o e, recostado em sua rude poltrona de campônio, poe-se a fumar como que envaidecido ante o feito glorioso do seu grande heroísmo.
Queremos acreditar que, depois de suas famosas vitórias marciais, o imortal filho da Córsega experimentaria iguais desvanecimentos, não devendo invejar-lhe a bravura o corajoso cearense, que, se morreu obscuro, relativamente ao seu admirável valor pessoal, nada mais fez que pagar duro e ingrato tributo ao meio estreito em que viveu.
Dias depois o capitão Honorato dava entrada aos dois grandes criminosos na cadeia de Quixeramobim, onde foi recebido com fogos e música pelas autoridades e população, que o aclamava herói.
Uma bela manhã, porém, quando o ameaçado achava-se em sua referida fazenda na companhia somente de sua mulher, uma escrava, um escravinho e o respectivo vaqueiro, desleitando com este as vacas (era no inverno), ouviu que, pelas costas, lhe diziam da porteira do curral: bom dia, capitão Honorato.
Eram os dois facínoras, que, enfeitados de clavinotes, cartucheiras, espadim e faca pequena, vinham fazer a visita prometida.
Com rapidez do inesperado momento, vira-se Honorato, e, simulando a calma dos heróis, respondeu-lhes: bom dia, meus senhores; deixem que acabe de tirar leite desta vaca, que lhes falarei.
O covarde do vaqueiro, diante dos sicários, armados até os dentes, como se costuma dizer, pula a cerca e dispara em busca da mata vizinha, onde se embrenhou apavorado.
Desleita a vaca, dirige-se Honorato ao girau dos potes a deitar ali o leite colhido e diz para os seus visitantes: vão para a casa aí pela frente.
Note-se, que no trajeto dos pés da vaca ao dito girau dos potes, ouvira ele esta voz partida dos cangaceiros - não atire no homem.
Não se voltou, entretanto, o indômito valente, não; mas esgueirando-se, ficou fino como um dedo, conforme me contava ele depois, relatando essa grave ocorrência de sua mocidade.
Tornemos agora a sua entrada pela parte da cozinha da casa, enquanto os malfeitores esperavam na frente.
ali chegado, encontrou a esposa em desmaios, e reanimando-a, verbera: mulher, por Deus, não dê sinal de fraqueza.
E atravessando bem a porta, ordenou à escrava que se sentasse ali na sala interior, e que, ao primeiro chamado, corresse à sua presença.
Calmo e prazenteiro, vem à sala da frente, faz ao recém-chegados ligeiro cumprimento de cabeça e os manda entrar, o que só conseguiu depois de forte e calculada insistência.
Sentados em um banco, Honorato fecha a port de baixo, de arrochada tramela, e pergunta-lhes o que pretendem, ao que responderam que iam buscar a granadeira tomada.
Ainda com aquela calma que lhe era peculiar, diz Honorato que não podia entregar por pertencer ela ao governo; mas que lhes fornecia dois quartos prontos e arreados para fugirem, bem como o dinheiro de que dispunha na ocasião, mostrando-lhes ouro, prata e papel, que sacou de uma gaveta.
"E a nada o brutos se moviam"
Nesse comenos, chama aquele escravinho, já voltado do curral, onde soltava os bezerros à proporção que lhe eram pedidos pelo tirador do leite, conforme o uso do sertão e o põe a botar-lhe água nas mãos, colocando-se, porém, de modo que o pequeno, inconsciente instrumento de seu plano mavórcio, desse às costas aos visitantes.
Isto feito, fingiu-se irritado com o pobrezinho do preto pela falta de atenção, tomando aquela posição desrespeitosa, e, em castigo, deu-lhe grande bofetada, arremessando-o longe, tal a sua proverbial força hercúlea.
Surpresos os criminosos e desviados seus olhares para o escravinho que caíra, como era natural, avança Honorato com a velocidade do raio e destreza do leão das selvas, e, jogando o pé no estômago de um deles, prostra-o por terra, arrebata-lhe o clavinote, e, apontando-o contra o seu companheiro, grita-lhe: rende-te cabra, ordenando-lhe que se despojasse de suas armas, no que, é escusado dizer, foi prontamente obedecido.
Ato contínuo, fê-l cruzar as mãos sobre as do seu companheiro desfalecido, chama a escrava que pata tanto deixara na sala interior, como ficou dito, e lhe ordena que os atasse conjuntamente, colocando ambos, assim presos e ajoujados, em seguro armador da casa.
Em seguida, toma do seu comprido cachimbo, acende-o e, recostado em sua rude poltrona de campônio, poe-se a fumar como que envaidecido ante o feito glorioso do seu grande heroísmo.
Queremos acreditar que, depois de suas famosas vitórias marciais, o imortal filho da Córsega experimentaria iguais desvanecimentos, não devendo invejar-lhe a bravura o corajoso cearense, que, se morreu obscuro, relativamente ao seu admirável valor pessoal, nada mais fez que pagar duro e ingrato tributo ao meio estreito em que viveu.
Dias depois o capitão Honorato dava entrada aos dois grandes criminosos na cadeia de Quixeramobim, onde foi recebido com fogos e música pelas autoridades e população, que o aclamava herói.
Cadeia de Quixeramobim.
Por toda parte vulgarizou-se o importante acontecimento, publicando então na imprensa oficial daquele tempo.
Decorridos meses, recebia o digno funcionário Comenda da Ordem de Cristo com que o Imperador galardoava tamanha bravura; título que foi, entretanto, rejeitado pelo louvável desprendimento de quem, maior do que essas honras vãs, que verdadeiro valor dão à gente, tinha o seu próprio merecimento inato.
Não sabemos o que ele possuía em mais alto grau: se a coragem do bravo, que vence, se a elevação dos grandes espíritos, que dominam.
Neste edificante ato de abnegação está, por certo, o seu maior heroísmo, a glorificação de nobreza
O Cearense
Portaria nomeando a Antonio Honorato da Silva Limoeiro, sub-delegado do distrito de Mombaça
nº 73 Quinta-feira, 05 de Agosto de 1847 (sic)
![]() |
Fernando Antonio Lima Cruz Francisco Assis, em todos os documentos da Câmara Municipal de Maria Pereira, sob a custódia do Arquivo Público do Estado do Ceará - APEC, o nome do capitão Honorato é citado como Antonio Honorato Silva Limoeiro (sem o "da" antes de Silva). Assinaturas autógrafas (de cima para baixo): 1 - Manoel Procopio de Freitas; 2 - João Alves de Carvalho Gavião; 3 - Antonio Claudio de Almeida; 4 - Antonio Honorato Silva Limoeiro; 5 - Francisco Aderaldo de Aquino. Extraído de ofício da Câmara Municipal de Maria Pereira, enviado ao presidente da Província do Ceará João Silveira de Sousa, datado de 11 de julho de 1858 (Arquivo Público do Estado do Ceará - APEC). |













Nenhum comentário:
Postar um comentário